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Release
TRATADO
GERAL DE BREJEIRICE E BOA MÚSICA
ANA DE HOLLANDA traz a carga genética da família.
O irmão Chico, de cantor tímido nos anos 60, passou a intérprete
vigoroso. A irmã Miúcha, banhada de bossa nova, desenvolveu
estilo aconchegante. A outra irmã, Cristina, abraçou o samba
e dele tomou posse. A sobrinha Bebel filtrou tudo e está ajudando
a redescobrir a música brasileira. O papel de Ana nisso tudo? O
lado brejeiro, ao mesmo tempo instrospectivo e ousado, como está
demonstrado em UM FILME, seu terceiro disco, lançamento
JAM MUSIC, que tem produção executiva de Marco André
e pesquisa de repertório da própria intérprete, calcada
em sambas e canções antigos e recentes.
O
álbum abre com a faixa-título, o samba "Um Filme",
parceria da cantora com Jards Macalé (que participa ao violão).
"Marés" traz, com melodia de Maurício Carrilho,
um inspirado poema de Paulo César Pinheiro, de versos como "não
sei qual a dor que machuca mais/se é morrer à mercê
do mar/se é viver amarrado ao cais". "Depois De Tanto
Amor", de Paulinho da Viola, foi gravado originalmente pelo autor
em 1966. Kleber Costa e Ana de Hollanda assinam a valsa "Contra
Mim", de letra e linhas harmônicas trabalhadas, que chamam
atenção já à primeira audição.
30 de Agosto no Mistura Fina - Rio de Janeiro
"Mais Um Samba Popular" (Noel Rosa/Vadico), sucesso com
Aracy de Almeida, mostra com exatidão quais foram as maiores influências
estilísticas absorvidas por Chico Buarque. "Engomardinho"
(Pedro Caetano/Claudionor Cruz), samba amaxixado também gravado
originalmente por Aracy de Almeida, recebe releitura bastante simpática
de Ana de Hollanda. Moacyr Luz e o poeta Aldir Blanc assinam o pungente
e dolorido "Sem Maldade". A valsa "Girando Sob
A Tempestade" mostra que a Ana compositora é ser dos mais
inspirados. Será a genética?
"Marca" (do talentoso Sérgio Santos, em parceria com
o poeta Paulo César Pinheiro) é um samba com forte influência
bossanovista e letra que canta o desamor. O violão mágico
de Guinga emoldura a voz de Ana de Hollanda no blues "Yes, Zemanés",
com melodia do músico (que gravou a versão original) e versos
de Aldir Blanc. A brejeirice volta a marcar ponto no samba "Ele
Não Sabe Dançar" (Alcebíades Nogueira/Cristóvão
de Alencar). O fim iminente de um grande amor é o tema de "O
Que É Que Há", samba de Chico César, que
divide os vocais com Ana de Hollanda.
O grande cantor não é necessariamente aquele que mostra
ao sistema planetário ser dotado de elevada capacidade pulmonar.
É aquele que consegue exercer domínio sobre os recursos
que possui. Ou seja, é ter e fazer uso de sabedoria. Em todas as
faixas, a voz de ANA DE HOLLANDA salta aos ouvidos por transmitir
altas doses de sensibilidade e faceirice. O principal requisito da intérprete
é a sinceridade com que entoa os versos, o que dá a nítida
impressão de se estar ouvindo-a cantar numa roda de amigos íntimos.
A degustação de UM FILME é, portanto, mais
que saborosa.
Toninho Spessoto
Julho/2001
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